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O Sinal Toca e o Tempo que se cala na Escola

  • Foto do escritor: Eduardo Worschech
    Eduardo Worschech
  • 22 de jan. de 2025
  • 6 min de leitura

Verdadeiramente, não poderia haver escrita sem conflito, assim como arte sem estímulo.

Uma predisposição se caracteriza por sua singular relação que se estabelece com as forças que a circundam, mobilizando afetos e comportamentos; condicionando os passos de uma dança social.


Capturado pelo sequenciado de portas e corredores, a escola enquanto locus instrucional em sua compleição, tem diante de ti um microcosmo que reverbera para além de seus muros que a cercam, acolhem, mas também segregam.


Adentrando seus portões, um sinal sonoro característico da ecologia sonora das fábricas toca, livre da proscrição social e lembrando aos envolvidos que o poder e o som estão imbricados; e quem os detém pode fazê-lo sem censura, isto que poderia ser confundido com um ruído sagrado. (Schafer, 2011, p.114).


Acreditei por um instante ser um citadino da distante Idade Média, a qual o som do sino, esta necessidade de clamor nas comunidades cristãs, ordenava a vida social em seu entorno, onde se organizava as dimensões do trabalho, das festividades e dos falecimentos.


Os toques de sinos rurais do século XIX, tornaram-se ruído de um outro tempo, eram ouvidos, apreciados de acordo com um sistema de afetos que hoje está desaparecido. Eles foram testemunhas de um outro relato de mundo e do sagrado, de uma outra maneira de se registrar no tempo e no espaço e, também, de como experimentá-los. A leitura do ambiente sonoro entrava intensamente nos processos de construção das identidades, individuais e comunitárias. O toque dos sinos se constituía numa linguagem, fundada em um sistema de comunicação que pouco a pouco se desorganizou [...] Ele autorizava as formas, hoje esquecidas, da expressão do júbilo e do prazer de estar juntos (Corbin, 1994, p. 14).


Antagônica posição, ao ruído profano e delimitado do sinal da instituição escolar, o tempo preenchido entre as disciplinas é contado; sem grandes sobressaltos ou expectativas alvissareiras.


Contraposição ao som centrípeto que atrai e une a comunidade, ao mesmo tempo que sua força centrífuga era utilizada para expulsar os espíritos do mal (Schafer, 2011, p. 86); o ruído do sinal da escola cria um percurso linear em direção as salas de aula, e produzem uma sensação de angústia por ter que retornar donde nunca quiseram estar.


Parece me que nenhum dos atores que ali ensaiam esta dança do aprender e do ensinar, desejam estar sob o jugo deste estrondo artificial, que controla nosso ímpeto e impedi o transcorrer natural de nosso voluntarioso apreender.


Sensibilidade coletiva aprumada ao corte profundo do som, vida escolar partida por interrupções de raciocínio e um fragmentar conhecimento; uma integralidade nunca alcançada por quaisquer que sejam as interdisciplinaridades a que se propõe; a reminiscência medieval da vida lenta ditada pelos sinos foi subvertida.


[...] as expectativas que eram ou que podiam ser alimentadas, no mundo metade camponês metade artesanal aqui descrito, eram inteiramente sustentadas pelas experiências dos antepassados, que passavam a ser também as dos descendentes.

Quando alguma coisa mudava, tão lenta e vagarosa era a mudança que a ruptura entre a experiência adquirida até então e uma expectativa ainda por ser descoberta não chegava a romper o mundo da vida que se transmitia (Koselleck, 2006, p. 315).


Diferentemente deste universo promotor de sentido e significado, o estrondo sonoro do sinal escolar disciplina mais fortemente que o relógio da era industrial, movendo fluxos de indivíduos rumo aos seus lugares de confinamento; pois, no rumo contrário aos princípios de liberdade e autonomia, a escola aqui não é entendida como espaço de convivência e aproveitamento.


Uma substancial paráfrase caberia aqui e expressaria uma verdadeira desavença professoral de classe: se há de fato há um uso-pedagógico-do-tempo ( Thompson apud Leal, 1998). Uma hiperaceleração apropria-se deste tempo, produz um espaço igualmente feroz e tem como consequência um atropelado aproveitamento das convivências, instados a começar e acabar ali mesmo onde estão.


Além disso, ao sinal escolar, o “espaço de experiência e horizonte de expectativa” (Koselleck, 2006, p. 314; Arantes, 2014, p. 22) é maculado por esta hiperaceleração de processos, rompendo com as cadeias prováveis de associação, entendimento e reprodução cultural.


Se o ruído sagrado das catedrais não era extático, estava peremptoriamente ligado ao contexto e mudava de acordo com as transformações que a sociedade sofria, este ruído profano do sinal escolar desorienta, visto que produz rupturas disciplinares entre as aulas e seus meros quarenta e cinco minutos; também uma celeuma disruptiva no desenrolar teatral das práticas pedagógicas acontece; impedindo que raciocínios se completem e entendimentos se concluam.


Assim, a transitoriedade sócio- estrutural que acomete o mundo coletivo parece não ter chegado até a escola, dado a insistência na manutenção deste ruído, que deixou de ser sagrado pelas próprias contingências ambientais e seus reflexos no comportamento de seus atores.


Em se tratando de comportamentos, na era industrial o álcool era o companheiro dos momentos de desabafo ao final das jornadas de trabalho; nas escolas, os antidepressivos são os confidentes de toda travessia professoral; companheiro quase invariável de um processo de escolarização que excluí os méritos pedagógicos do professorado e aliena sua estima em troca de um salário irrisório.


Em seu lado B, a celeuma do sinal marca o princípio de uma arritmia educativa, com intensa perspectiva em tornar-se um enfarto cognitivo.


O seu desenrolar coaduna-se com o plano e raso currículo, feito sob medida para se encaixar sem resistência ao mais baixo formativo; com implicações dignas de uma catástrofe humanitária.


Ao suposto exagero da retórica, podemos pontuar o tempo sem destino do cotidiano escolar, e sua dinâmica homeopática sem um panorama de cura, pois ao conta gotas são ministradas didáticas tóxicas, destituídas de teatralidade e o nobre empenho em travar diálogos transgeracionais; ao velho e empoeirado acrescenta-se o asséptico mundo virtual, que introduziu telas e imagens expostas sem filtro crítico, de superficialidade hermenêutica e que depõe-se de uma singularidade cenográfica, se assemelhando aos filmes de ação em que a velocidade dos eventos fratura o entendimento.


Se no congestionamento educacional da educação tradicional, que entupia as rodovias do pensar com uma enorme quantidade de palavrório e decoração; nesta nova fase da educação, a autoestrada sem limite de velocidade traz consigo um cem desastres por minuto, pois promove uma coação sistêmica com base num incessante despejar comunicacional sem parada.


A linguagem veiculada por este modo comunicacional elimina toda ambivalência, promovendo um léxico puramente mecânico, inversamente disposicional em relação ao universo humano. Dirá Wilhelm Humboldt que “ na palavra, ninguém pensa justa e precisamente do mesmo modo que o outro, e por menor que seja a diferença, ela oscila, como um círculo na água, e atravessa toda a linguagem.


Aqui, o sinal sonoro não transversaliza os corações dos estudantes, de maneira a fornecer referências simbólicas sobre como a escola é organizada, pois elas marcam apenas momentos pontuais, como entrada e saída.


Esta operacionalização captura de maneira indistinta professores, alunos e a gestão escolar, instaurando uma coação que transparece no tempo curto entre aulas, nas inúmeras projeções audiovisuais, nas intermináveis formações professorais; e na superficialidade com que tudo é visto e experienciado, tudo a um só toque.


Este caráter maquinal expressa-se na veiculação de informações sem filtro e non stop, prenuncio de um aniquilamento do pensamento crítico.


Ao comportamento dirigido, de complexa dinâmica e de difícil observação, bendito seria a anti-determinação, pressuposto de uma liberdade radical do professorado, que afrouxa as rédeas da imposição, que entregaria inclusive suas almas ao futuro benfazejo da educação.


Mas, sem porto seguro que pudesse um dia atracar, o sinal ainda orienta a sua navegação, que a esmo neste oceano de vasta dimensão, não perdoa a ninguém que um dia se colocou diante dos perigos de sua navegação.


Parece pouco importar em qual sala deveria estar, pois todas tornam-se apenas uma a cada grito daquele soar. Perdido entre mundos, o som estridente do sinal toca muito mais que uma mera vibração, e aliena quem de ti puder ouvir, preconizando uma artificial relação a qual o professorado esta submetido, na condição de rasteira companhia, nesta esfera do ensino, onde o tempo se esvai, no aguardo ansioso do final daquela noite.


No altissonante sinal que toca, interações passíveis de controle emergem por entre as fileiras do magistério, e um sentimento de angústia perpassa os corações e atinge este sempre desavisado professor, que para todo o sempre será um iniciante em meio a educação básica.


Bibliografia

Arantes, Paulo. “O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência”. São Paulo: Boitempo, 2014.


Cage, John. “Silêncio”. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.


Corbin, Alain. “Les cloches de la terre: paysage sonore et culture sensible dans les campagnes au XIXe siècle”. Paris: Albin Michel, 1994.


Koselleck, Reinhart. “Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos”. Rio de Janeiro: Contraponto/Ed. PUC-Rio, 2006.


Leal, Sérgio. O sino e a sirene: memórias sonoras e transições do Ruido Sagrado. Musimid- revista brasileira de música e mídia, 2022. ISSN: 26753944.


Loureiro, Isabel. Em busca do futuro perdido: a tarefa política da nova geração. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros [online]. 2014, n. 59 [Acessado 7 Setembro 2024], pp. 389-396. Disponível em: https://doi.org/10.11606/issn.2316-901X.v0i59p389-396.


Schafer, Raymond Murray. “Vozes da tirania: templos de silêncio”. São Paulo: Editora Unesp, 2019.


 
 
 

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