A Autodeclarada porta voz da Discórdia
- 2 de out. de 2024
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Foram cinco unhas em direção descendente que produziram um som dissonante, quase um grito desafinado de horror e desespero. Hospitalizado, mas não hóspede, recebeu uma anestesia amorosa, consubstanciando sua familiar ascensão ao mais breve retorno ao limbo que a ti foi prometido, desde que um vidente previu a superação do pai.
Com uma diretriz absolutista, lógica do inimigo escrachada no cotidiano, junta-se a turma para mais a frente linchar o herege, ocultamento daquele brilho que ofuscaria o já envelhecido verniz familiar.
Tomado inadvertidamente o local de parlamento, suprimiu pelo força da inépcia a potência do saber, pois, esta raiz profunda chega a superfície e mostra sua exuberância. Não são polaridades que divergem por característica ou volição; são modos de promover ou encerrar a vida, expansão mais do que ativa .
Naquela suposta outra ponta, que queima sem esperança e felicidade, manuseio do mau feito e entorpecimento, não há quaisquer remanescentes aguardos ou o suspiro tranquilizador do verdadeiro alívio.
Quando Narciso ao ver seu reflexo nas águas banhou-se de alegria; o mesmo não ocorreu ao súbito porta voz, que ficou horrorizado com sua voz em eco em outra tromba. Descontente, tentou insistentemente suplantar o impostor, em um combate sem vencedores pela coroa da infâmia.
O que cada um pôde angariar como prêmio foi o escárnio por tudo aquilo que acreditaram não fazer; mas fizeram com maestria. A excelência com a qual toda esta obra foi erigida a custo de algumas vidas e uma centenas de desafetos, talvez não seja medida por uma única geração.
Um resultado não esperado pelas vozes que ecoavam deste lamento de frustração e ressentimento; infiltração e rachadura advindos do fundo das ascendências familiares; eclodiram na mãe da discórdia, e se alojaram no íntimo de seu frio navegar.
Muito do que brota deste solo seco e árido não deveria ser um assombro, dado a sua própria constituição e corporatura. Destas sobras de uma semente em germinação, pouco restou que pudesse ser identificado com seu nascedouro orgânico, de vitaminas em déficit e de pouca exposição solar.
De impostura reconhecível, sobretom vocal, uma necessária sobreposição forçada; devaneios tão distantes da poesia que a prosa se envergonha e deixa que fique tudo a cargo dos titubeios da fala, delongamento no trilho da suspensão cognitiva.
Mas de enganos também vive o sensato, que parece esperar uma redenção, uma remissão do mal que a ti sobrecarrega. Nada, como o tudo, são medidas extremas que não se assemelham com a vista possível de se ver quando atravessa-se uma ponte.
Aos gritos, como se não pudesse ser ouvida, esta personificação do ressentimento relata seu pseudo cuidado, uma amálgama de insatisfação consigo e um entendimento tácito de que nada a seu redor transformou-se pelas suas próprias mãos.
A dinâmica que se desenrola é a mimeses de um passado não vivido; sobrevivido a pão seco e água, o que acabou por promover um escasso poder de reconhecimento do outro enquanto distinção existencial, radical ontologia.
Os relatos que submergem deste profundo oceano de escuro pavor tem a marca da desilusão e do preconceito. A vela que deveria estar acesa no intuito de iluminar esta turva paisagem, tem seu pavio cortado mesmo antes de sua ignescência.
Mesmo diante de reviravoltas promovidas pela força natural da vida, os estigmas não deixam de brotar daquela pele lacerada pelo metabolismo canhestro e iníquo. Não há nem pode haver nada que possa se assemelhar com um justo e sua foice; este corte não chegou desavisado, como se não tivesse em seu bilhete o destino final de sua saga impeditiva, bloco de rancor inacessível.
Uma cobrança chegou a porta, bateu com força e entrou sem pedir. Uma tríade acusatória atravessou o corredor e chocou-se com aquele ouvido; não só não era atento, nem tentado a emocionar. De mensageiro da desordem à parlatório de sua própria verdade, nunca termina este seu caminho que transgride as direções numa bitransitorialidade circular; na qual discurso sem matéria e vazio sem silêncio se confundem.
Já o ondulatório serpentear difuso mas constante, amontoa-se naquela pilha de desculpas esburacadas, sem quaisquer chances de um recapeamento ser possível, dado o modo pelo qual articula-se seus fiapos, emaranhado de repetições cansativas; até mesma ao divergente.
Neste cacoete existencial, não só os discursos se repetem, pois da fala se faz ação e dela cada vez menos movimento; os truncamentos que me refiro são a mão única venosa que percorre todo o eixo, vasos sem flores; entupimentos imprevisíveis. O mal educado torna-se aquele que com ironia introduz uma dissonância vivencial, um fruto maduro que ainda não caiu do pé.
Aquele contrato implícito de porta voz parece dar um direito inalienável perante tudo que acontece, pelo menos naquele neurótico mundo na qual ela vive. Nesta demografia povoada de inimigos e comparsas, todos estão sob suspeita diante da língua ferina do mensageiro do caos.
O disparate em relação a sua atuação como separatista emocional aflora em seu elogio a cumplicidade, empatia e reconhecimento; uma caricatura de interesse por elementos alheios a suas próprias ações, expostas em sua conduta desonrosa perante o próximo.
A ufania diante da família contradiz-se no momento mesmo de suas falas, nem precisando chegar às práticas materiais e seus disparates. A ancestralidade para si parece resumir-se a uma lista apagada de nomes em algumas lápides, frieza do mármore em seu coração.
O menosprezo pelo próximo parental exaspera qualquer sujeito envolvido, na medida em que gravita na ordem crescente de seu desprezo; acumulação primitiva de desavenças e desgostosas experiências.
Como máquina de produção da insatisfação, suas dúvidas recaem de maneira desproporcional sobre as vontades do que pertence ao outro; que de maneira servil, agradece as rasteiras dadas e oferece ainda sua cabeça como prêmio da violência.
Isto ocorreu por quase quatro décadas, completadas sem festejos ou congratulações pelos feitos honrosos. Ao pêlo encontrado no ovo, enquadramento e exposição aos quatro ventos; esquece-se que do ovo já foi feito alimento; e que com satisfação nada mais teria de se queixar.
Com tamanha insistência, talvez a única duradoura em suas vestes desgastadas e pueris, guarda para si um estigma de abandono emocional parental, o mesmo daquele que ao longo das ondas sonoras propagou por toda uma vida.
Ao destino, aguarda ansiosa um fim azulado de moradas nas nuvens, que pouco vale diante do que poderia ter sido e não foi a comunhão perene do silêncio amoroso e do abraço sem palavras do aconchego incondicional.



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