Uma Majestosa Sobreposição de Grades
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Um exagero persegue as falas auditas do populacho, de que o imaginar seria um mero dispositivo acionado por um comando radicalmente simplório, descrito pelo“ tente imaginar”, e todos seus desdobramentos.
O disparate gritante que percorre ouvidos e se deposita no calabouço da memória, permanece lá com outros poucos prisioneiros voluntários, que entre si não dialogam, pois suas celas além de eternas, são intransponíveis.
Esta atmosfera de tamanho sufoco parece ter um inebriante lufar de desafio, uma batalha ao transeunte deveras desavisado, que sente a dor dessas grades como se sua fossem, e tenta, ao mesmo no imaginar, dar um lustre aos ferros que a compõe.
Talvez um verniz traga seu brilho de volta, poderia objetar o estupido que tropeça nesta jaula de múltiplas camadas, e vislumbre diante de sua inexpressiva empatia, um reluzir que nunca se acendeu.
Neste ínterim, a persona radicada no trauma, que embora tenha sua genealogia no longínquo mundo clássico, aqui ela subverte gêneros, e autóctone de seu próprio e intransferível locus, arrasta sua poeira. Narcisa, magnética diva, que diferentemente do passado, aqui não se deixa afogar em seu reflexo.
Que luxo seria o refletir, como consciência ou espelho, pois a maquilagem poderia agradar olhos outros e a cobiça libidinosa serviria de armadilha. Mas, não sejamos desonestos, a atração está sempre ali, de outro modo. Do lado de lá do espelho, um convidado compulsório aproxima-se para tomar as dores que não são suas.
Acontece uma maravilhosa troca, benfazejo por completo, integral em suas profundezas, pois a água que tomou o convés, passou a parasitar os fluxos de alegria e dor, tristeza e prazer; Narcisa sabe como fazer-se desejar, acolher, e também matar.
Suas vestes de franzidos listrados, interpela diretamente olhares que do vulgo ver, não pode se quer sentir; e com isso, faz dela uma atroz predadora, esfacelando sentimentos, sem o perdão das emoções e dos desejos.
Confabulo então a absoluta impossibilidade de algum fruto poder colher, não por desventura sazonal, mas pelo descompasso entre desejo e fertilidade, transformação e beleza.
Falo do fruto que ainda imaturo, despenca para a solidão involuntária, que assenta-se tão macio como a morte chega na vigília, assim como aquele fruto que assevera sua consistência e que por demais resguarda-se, apodrecendo no pé que lhe deu vida, e agora lhe subtrai.
Manifesto reacionário de incumbências familiares, peso que com total afinco , soterra Narcisa em uma medíocre, mas não reconhecida regressão; que confunde sua vexatória condição com uma iluminada expressão espiritual de difícil explicação
.
Ao avisado, o deslumbre já foi perdido numa outra dimensão, e mostra-se agora como deficitária submissão aos fatídicos desígnios vexatórios a tanto vivido, Sansara objetiva os disparates existências.
E o agora, mais do que o amanhã que redunda em passado, poderia servir seu café da manhã com alegria, mas todo o ressentimento trava o despertar, que ainda adormecido viceja sob o horizonte nunca tocado, pois o engano faz com que Narcisa não enxergue o que está diante de ti.




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