Um Refresco de Memória
- 8 de abr. de 2023
- 2 min de leitura

Um retorno pode parecer uma volta desnecessária numa trilha desenhada para se completar ao final de seu trajeto, para não ser mais revista em toda uma vida. Contudo, os mistérios que envolvem a memória não podem ser desfeitos por um mero giro de cabeça ou uma piscadela despretensiosa. Alinhada ao centro e dividida em duas partes, o reconhecimento veio na segunda, naquela tarde de sábado; sentada a cadeira da reminiscência da juventude.
Semblante que submerge das cortinas do tempo, advindas de outros movimentos, outras sensações. Naquele espaço sagrado de intimidade, recanto de aconchego e meiguice; subvertia-se o escaldante bater do tempo pela penumbra que não deixa projetar a sombra sobre os ponteiros, alegria do fim do dia.
Entidade da lembrança, quase me confundi, quis por todo o tempo que ali estive abraçar aquele tempo, desejando que o tempo tivesse voltado. Bom mesmo foi se refastelar com a imagem de um outro, com o frescor da pele macia e do reluzir do olhar; longos olhares, profundos cabelos.
Não era mais ela, nem para sempre foi; porta retratos fora da cabeceira, gaveta ao fundo do armário. Daquele perfume e açúcar permaneceu todo o doce viver e a utopia de um grande desfile na avenida principal.
Quando o batuque tocou o tambor com precisão, não é de se estranhar que não se veja o instrumento; pois é do som que se faz lembrar. De todo o tempo das emoções sonoras chegando ao coração, reverberação de contágio e expressão de um desejar, sobreponho mão a mão, maciez que só encontrava naquele toque.
A mesma saída e o olhar furtivo do fim, tudo prenunciava um fugaz regalo; toque tangente naquele ciclo que não caminha no sentido anti-horário, pois não se desnuda a mata fechada olhando-se para trás.
A verdadeira e mais tocante lembrança do feliz foi toda aquela inventada, do fazer nada, sem palavras que pudessem descrever, desdizer, desfazer. Nada disso precisou do prefixo; afastamento, separação e intensidade só foram acontecer quando a palavra tornou-se necessária, no deslize do não mais enxergar.
Vi novamente, mas agora renovada lembrança, nova vivência; não mais existente. Como agora meu apetite vem das asas das mariposas, dos elogios não vindos e das esperas não alcançadas; um transbordamento aflorou de um arrepio e de um sorriso, pétalas alaranjadas como o beijo do sol em sua fronte.
Não foi Cassandra nem Alessandra que foram amadas, pois de loucura ela nada tinha. Da proximidade que faz um, um suspiro e uma relva pra deitar, sentido que nunca poderá ser buscado.
Eu não quero o sentido ir buscar, porque sentido eu senti quando ela me tocou, pelos sentidos que não são sentidos pela razão.
Não houve mistério algum naquele amar, pois naquele singelo pestanejar, naquele fragmento de existir estava contido todo um brilhar. Luz que não vinha de quaisquer que fossem as fontes; nada poderia ser mais exuberante do que a energia que irradiava daquele abraço.




Comentários