Um Grão de Saudade
- 17 de nov. de 2023
- 2 min de leitura

O que há em mim é sobretudo paixão
A saudade parece ser inegavelmente vinculada a uma expressão das folhas da primavera a brotar de maneira incessante sem que nenhum botão de rosa possa permanecer adormecido.
Contudo, os ciclos sobremaneira interveem nesta permanência, arrasando com toda gravação sensorial, deixando para trás os fragmentos daquilo que um dia foi.
Ao sono prematuro do outono que nos assola, vizinho próximo do maior dos brilhos a chegar, leva contigo a vitalidade; e a solidão das sementes passa a ser a expressão da desunião que Perséfone sentiu ao nos deixar por mais uma vez.
Assim como toda memória é dependente dos brilhos e sorrisos, as frustrações são as testemunhas guardadas a tiracolo, de mãos livres para mais uma vez errar.
Esta frustração é sazonal, dependente em toda sua força das condições contrários a expansão e nutrição; tal como o grão que ao mar espera a rebentação, tristeza arrastada por toda a água a prantear.
ao choro sou amigo
mesmo sem ter lágrimas a cair
pois quem caiu foi uma estrela
trazendo toda água para ali
culpado assim fui eu
daquele estado zodiacal
que com o dedo em riste
deixei ser apontado por mais uma vez
Aos ciclos e reviravoltas--mas nunca as mesmas--ouroboros como mística confusa, uma vez que é impossível enxergar fora deste girar.
O marulho que carreia, também presenteia; com uma mensagem cifrada presa ao vidro que distorce, se quebrado espedaça por completo tudo aquilo que navegou, ou antes, tudo pode ver.
Machucado, contudo ileso, pois aos cortes sempre sofreu; de cifrado tornou-se uma língua não-falada, e que percorreu tanto por tanta altura, que se esborrachou no parapeito a poucos metros de todo desalinho.
Alinhavar toda esta escrita que por todo o momento nunca se fez entender, agora que se conecta, não pode nenhum anômalo perfil levantar suas mãos para abraçar.
Hiatos de esperança emergem conjuntamente com um palpitar ansioso, aguardo que deseja merecer uma palavra que equilibre a frágil condição de vivente emocional, subalternizado como se de pior pudesse encontrar.
Se no dia tens a espera um apitar, como a fábrica avisa seu sair; é entrar que lhe aguarda este chamar, contudo, sua ginga perde o tino quando a noite sobe e o liberto pode mais uma vez sonhar.
Fernando, aquele Pessoa, me indagou sobre minha alma, e que de menos poderia saber sobre as outras. Pensei comigo que nem da minha sei, pois olhares, gestos e palavras não podem nem de perto somarem uma semelhança.
Tentei me retratar comigo mesmo, sem confissão ou desaparição; levando a cabo um exercício que a muito pratiquei ainda jovem, que consistia em esperar que o horizonte um dia pudesse a mim se aproximar, mesmo esquecendo que ao tempo não é dado andar, somente correr.




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