Sempre os possíveis adiados
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Naquele espaço reduzido de poucos cômodos, o que havia de ensurdecedor eram os silêncios no interior de todo aquele barulho emocional, um pesar de vidas passadas e desculpas fabricadas.
Seria bastante impreciso dizer que me lembrava de seu toque macio, como se o passado fosse meramente um dia contado no calendário, e que eu pudesse virar a folha ao terminar aquele mês.
Evelyn certamente evitava a íntima verdade da paixão, insistentemente ela retirava de seu caminho todo bem estar duradouro, como se por merecimento aquilo não lhe pertencesse.
Impulsiva, com o mesmo ímpeto que me devorava, desconfiava que outras poderiam também assim ser, sem imagem nem semelhança, pois acreditava que seus êxitos tinham algo de extraordinário, sem titubear.
Donzela de eloquente frenesi, seu conforto impositivo adquiria a forma de uma cadeira elétrica emocional, que me atraia pelo perigo do choque, mas me alertava sobre a morte romântica que estaria ali naquele assento.
Quando eu parecia relaxado e entregue aquele macio aconchegante, ela chegava como um cobrador de impostos medieval, exigindo algo em troca pela sua companhia real.
Mal sabia Evelyn que não possuía nem cetro nem coroa, mas uma armadura de vulnerabilidades, guerreira de uma batalha contra as solidões que haviam em ti, guerras não escolhidos e inimigos que sempre foram convidados a entrar.
E sem qualquer comedimento, ela atirava seus dardos de desconfiança e melindre em meu peito, ignorando o amanhã, convencida de sua natureza exitosa cumprida neste plano, sem desculpas ou agradecimentos.
Para sobreviver mesmo sem méritos, ela havia imposto a si mesma uma disciplina implacável de autocontrole e anulação, uma perfeita subjugação onde ela própria se encarregaria de garantir que todos os pesos, pesares e pesadelos do mundo recaíssem exclusivamente sobre seu próprio espírito, assumindo para ti o desesperançoso futuro.
Em relação ao corpo de Evelyn, ele se mostrava tão condicionado quanto de um atleta, entretanto, sua desativada consciência operava em silenciosa desaparição, um limbo em que a solidão tornou-se mestra do destino.
A verdade era temida por mim, daquela perversa continuidade de passos que juntos dávamos, sem que vestígios palpáveis pudessem demarcar uma trilha de cura.
Afinal, na intimidade daquela casa, onde acordava-se cedo demais e dormia-se exausto, havia uma espécie de doutrina auto evidente, uma verdadeira regra de sobrevivência naquele microcosmo de desilusões consentidas.
Ela dizia muito sobre um futuro imaginado, de um estado de total calmaria, deixando escapar ao seu olhar o que estaria diante de ti, e preferindo talvez sem escolha, guardar cuidadosamente debaixo do tapete seus desalentos e desamores, na esperança de um dia fazer desaparecer.
Tudo aquilo aparentava-se nada, pois a velocidade com que tudo era posto, de nada permanecia. Dei assim uns passos para o lado, e deixei passar este trem desgovernado, sinceramente lamentando pela sua falta de freio, e imaginando um dia poder apreciar uma viagem na qual a paisagem alimentaria meu olhar.




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