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Na distância das Breves Lembranças

  • há 2 horas
  • 2 min de leitura

Sempre desconfiei da ideia de que apenas uma gota poderia fazer transbordar um copo; talvez uma gota já seja um transbordar.


Foi o que pensei ao observá-la estendida na cama, num sono profundo daquela que aparentava passar os dias e conjurar as noites.


Para quem olhasse com descuido, era apenas repouso; para mim, que a conhecia, era um mergulho em profundezas temíveis, um abismo estéril de sonhos, mas perigosamente prenhe de fixações.


Na solidão a dois, eu arriscava fantasiar seus possíveis sonhos, entrada sem retorno neste labirinto desértico. Havia ali uma inventada estante de memórias, meticulosamente organizada em prateleiras horizontais, dispostas em linha, como o tempo faz crer. Na primeira prateleira, uma infância negligenciada; na seguinte, uma puberdade desassistida; e ao fim nunca contido, um retorno mal digerido daquilo que veio antes desabar.


E o "aqui" era este lugar. Um tempo que se impunha sobre nós com sua entediante força cotidiana, uma rotina de necessidades urgentes e desgarradas submissões.


Entre ordinários afazeres sem esmero e amores que circulavam sem afeto, eu era o cuidado sem esperança, que com qualquer toque fez multiplicar sentimentos.


Ingênuo que sou, movido por uma simpatia gratuita, tentei alcançá-la recorrendo ao mais ínfimo trato, por entre escombros de insegurança e desamparo; onde o amor haveria um dia de entrar furtivo.


E por sobre estes pesados tijolos, um fugaz suspiro carregava um alívio, mesmo diante destas ruínas tão primordiais e sofrimentos essenciais.


Nestas angústias que açoitavam deliberadamente seu viver, parecia cumprir um propósito bem desenhado e persistente em sua mente.


Aproximei-me com um beijo que decifra, que põem tormentas a dormir e terremotos à purificar; e senti uma negativa envergonhada, pois o amor poderia desarranjar seus fluxos narcisistas e sua arbitrária batalha contra tudo e todos.


Compreendi então que não era por um acaso da existência que as folhas da nossa história quando caíram, retornaram como fruto proibido; experimentado sem libido, não é possível se refastelar de seu sabor acinzentado, pois a apatia espiritual que ali regia, impossibilitava qualquer doçura ao paladar.


E quando o amargor tornou-se insuportável na antessala daquele quarto, desisti; e a primeira brisa que soprou na janela aberta me arrastou para bem longe dali.


Caminhei até a distância das breves lembranças, carregando comigo apenas o fulgor do relógio parado e seu ponteiro estático, estacionado para sempre naqueles raros e prazerosos momentos em que o mundo se escondia e somente ela eu tinha em mim.








































 
 
 

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Eduardo Worschech

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