Retrato da Insegurança
- 12 de set. de 2023
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Quando se olha para ambos os lados para atravessar uma rua, esquece-se de que a paisagem ao redor estabelece um pequeno quadro do real. Por conta da mera bípede dinâmica, assoberbado de estímulos que com toda certeza não estão ali naquela moldura, atravessa-se sem olhar para onde se vai; garantindo que o acaso predomine sobre a vontade.
Se colocássemos uma pequena lupa; sem cuidados maiores com um microcosmo ou coisa que o valha; provavelmente poderíamos sem erro nos apropriarmos de uma imagem nova, mas com certeza dispensável, diante da cegueira visceral de todo imaginário tacanho que nos apequena desde o interior.
Ao cotidiano, o hábito mascara os passos automatizando maus feitos e improbidades familiares; naturalizando o erro que ao próximo poderia passar despercebido.
Se os anos caminham, as matizes de desgaste validam uma imprecisão no cuidado com que aquele prosaico senhor deixou de ter consigo; custo elevado para aquela fila que se amontoou nas suas costas.
Sem olhar para trás, ao campo fez se fértil morada de inúmeros pomares, de folhagens ressecadas; provável efeito do excesso de poda e de pouca água. Ainda ao amanhecer deixou para lá o que poderia ser para cá aquela extensa plantação; na estiagem emocional as mazelas foram conjuntamente plantadas, dando aos frutos todo amargor que só o abandono poderia dar.
Naquele mesmo pedaço de terra se cultivou nenhures alegrias, mas dezenas de alhures pesares. Ao tempo fechado, de nuvens que não se dissipam nem com o sopro divino, um acidentado tornou-se a palheta de cores definitiva de muitas vidas; tons de acinzentado que preconizam a extinção do arco-íris.
Se com sete cores faz-se o mais belo vermelha e o violeta; com o preto e branco não consegue-se escapar da penumbra que sobrecaíra por sob os pés pequenos dos infantes vindouros.
Mas desta sina ninguém escapa, pois a confiança não foi algo partilhado como fertilizante daquelas vidas; nem a viçosa pele poderia atestar que houve alguma nutrição que chegasse ao caule; e que do caule fizesse-se raiz.
Quão belo daquelas raízes que alastram-se sem controle, rizomática por excelência; labirinto de composição e fortalecimento da autonomia em todas suas vestes.
Na composição desastrosa de sol sem chuva, chuva sem nutriente; de mirado fez-se corpo, e com o maltrapilho chambre compôs-se um cenário de desolação perene e contundente.
A ti, este encorpado aglutinou-se de maneira a em essência estipular e estimular quase todo modo com que a percepção funcionaria; com parafusos a meio aberto e outros sem quase rosca.
Leniência em todas as voltas, perversidade na sua composição; a certeza quase sempre vem travestida de má conduta, objeção que se alastra do avesso, instaurando uma ofensiva a si mesmo.
Esta perpetuação de um mal viver é a seiva que corre em suas artérias entupidas, fluxo vegetal como seu estado cognitivo- emocional; se ali pudesse um dia fluir um afeto que aumentasse sua potência de vida, haveria um colapso sistemático em seus órgãos enferrujados.
Se uma vista desgastada então mirasse este deserto de solidão afetiva, ao longe veria um mormaço emergindo da decomposição dos sete palmos logo abaixo da linha deste horizonte lúgubre; nas proximidades, o cheiro acre faria com que seus olhos lacrimejassem, e o destino encaminharia sua fuga para bem longe, onde os pássaros ainda piam e as borboletas podem voar.
Mas aqui poderia parecer a mera descrição de um passado que já se foi, de folhas secas que voltaram para o solo de onde se nutriram como verdes eram suas cores.
Seria um engano alegre se não houvesse a intenção de machucar e sair ileso; o esquecimento forçado de que esta escada não leva para cada vez mais alto, e a certeza de que o inconsciente deixado para trás não deixa seus rastros na areia.
De fato, não é possível reconhecer a incapacidade de conhecer, logo, um paradoxo instaura um processo de degradação ambíguo: quanto mais acredita- se saber, próximo se esta da estultícia; da mesma forma que não saber se apresenta como dádiva, pois aos céus estariam reservados os direitos de uma verdade supraterrena.
Como podem ser tão extensas estas palavras que tropeçam de uma boca, e caem nos ouvidos moucos ; certo estamos que cada pigarro é uma pedra no caminho de uma inautêntica existência, fruto de todo cuidado que se tem em deixar as coisas escaparem pelos dedos da mão; e esperar que elas apareçam no bolso.




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