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Passagem ao Largo

  • 12 de abr. de 2023
  • 3 min de leitura

 

Uma vasta mas não rara aglomeração vai se avolumando no convés daquela pequena embarcação a deriva. De lago a oceano, ondas densas passaram a se chocar, de elemento vital ao mais voraz e mortal diluidor de esperanças.


Ao que parece, não se pode negociar com o imediato, pois de dureza visceral não cede lugar a quaisquer que sejam as vontades de existência. Nas perniciosas ondulações que chegaram a ti sem que o desejo pudesse ser consultado, sono que não pesa por conta do peso do perigo em estado de vigília; desconfia que aquilo tudo seja verdade e que acreditar não fará nada deixar de ser.


Esta literalidade aquosa, que afoga suas mágoas e arrasta na superfície de suas bolhas o presente como passado, sem libertação do tempo que o precedeu, atravessa-o pelo esforço do remo, esbaforido pela sempiterna sensação de terminar; aguarda inquieto que o real não seja aquilo que se fala dele.


Quão duradoura foi aquela gota, que no seu respingar marcou com duradoura persuasão o casco daquele barco, tamanha ânsia de aniquilar; ainda é possível ver o mastro a balançar a procura de ventos ao sul poderem levar, de envergadura ímpar, esteio a guiar.


Entre ampulhetas e colunas d’água , nada poderia assistir a derrocada advinda do contraponto entre o mar e a terra firme, aquela multidão aviltante de ondas a chocar e um necessário anteparo insular.


Como poderia ser menos que sublime toda esta viagem ao pacífico por entre horizontes e tormentas, terras férteis e monstros de caldas longas e duradouras. Assim se fez esta inscrição premonitória deste espetáculo familiar, de poucos risos e muitos aplausos.


Estas comemorações em alto mar, de solo fluido e intangível, catástrofe singular, abarcam um pequeno povoamento distinto, necessário apagamento por iniquidade; velam- se os corpos para que não padeça a alma.


Objeções não são eficazes neste indômito espaço, de líquida constituição e indiferente reconhecimento; nada pode agora ser partilhado, compartilhado, consentido. Desencontros são marcados para que se possa pouco a pouco se esquecer que um dia tudo aquilo aconteceu.


Descendo as encostas de onde aquele nascedouro se formou, pôde perceber que dali em diante corriam muitos outros córregos, até que um grande mar de esquecimento pudesse ser encontrado. Com duas ou três moedas pôde embarcar novamente naquela nau, trajeto incomum subir a foz do rio, enquanto todos os outros descem.


Ao avistar as cercanias daquela vila, muitas marcas vieram me dizer que tudo aquilo aconteceu e que se perderia um lugar enquanto a tempestade não se arrefecesse. Sobe ao mastro para entoar aquela canção que ouviu dizer que falava de um velho marujo, que ao cuidar de todos os marinheiros de sua tripulação, pôde finalmente descansar em sua rede, pois no leme havia um garoto de calças curtas, que singraria os mares dantes vistos, com a dura promessa de enfrentar o seu destino, apagar as familiaridades e mais uma vez poder viver e criar um mundo como expressão de um bem viver.


Cansado e com as vistas gastas, sem um porto que pudesse servir de verso para falar; arrastou o passado em sua direção contrária, condensando-o neste presente; mais do que criar as condições, fez-se não se conformar, nem se submeter. Fernando Pessoa estaria certo em dizer que só vence aquele que nunca consegue?


Conformar-se é submeter-se e vencer é conformar-se, ser vencido. (PESSOA, Livro do Desassossego)


Choque sem precedentes, um sorriso difícil de acontecer, as ânsias e frustações fecham um cerco do sol poente ao crepuscular; determinam um certo navegar perambulante e impreciso; os diálogos ocorrem a sua revelia, como monólogo mexeriqueiro; que servem muita mais aquele que diz do que o que ouve.


No acossamento que se remete, dias se fazem anos, e uma geração que se perdeu. Sobrevidas que perduram por sobre indícios de fracasso, pelo menor esforço tem-se aquilo que se vê e se valida; mas não há evidências mais severas do que aquelas que atormentam e se regeneram diante de toda acabrunhada que por simbiose e crescimento de maneira perdulária sobreviveu.

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

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Eduardo Worschech

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