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Imperfeição a Olhos Vistos

  • Foto do escritor: Eduardo Worschech
    Eduardo Worschech
  • 5 de fev. de 2023
  • 5 min de leitura

 

                                   Gabinetes da dissolução

 

As diretorias de ensino, conhecidas num passado como delegacias, incumbem- se de policiar as atividades voltadas ao cumprimento das metas, diretrizes e políticas da educação, conformando o social aos desejos incontestes de subjugação e apequenamento intelectual advindos da regressiva mentalidade colonial e seus penduricalhos, próprias da indigência cultural das forças reativas dominantes e seus lacaios.


Consubstanciado em manquitolas de ilhas largas, conformistas com crises de melancolia e canalhas maledicentes; a turba por crédito e um ilusório reconhecimento aninha- se em tabiques de compensado, apostando em uma privacidade que nunca houve na repartição, comungando em seus genuflexórios pelo fim do expediente.


A permanência neste locus é inversamente proporcional a índole manifesta, e que se assevera a cada ponto batido e artimanha completa. “ Como foi seu dia querida?”.


Assiduidade relativa, toca- se em frente conhecendo as manhas e as manhãs, na inócua lida, compreendendo a marcha dos manuais, indicadores e boletins semanais. Dissimulada pedagogia, da massificação odiada ao narcisismo exacerbado, de uma “ geração enganada” passou a aceitação inconteste de sua atrofia sócio- cultural.


O trabalho na repartição policial como mantenedora da ordem estabelecida, promulga a ascensão das correlações entre mandos e desmandos, no cenário metropolitano e nos guetos adjacentes.


A disputa é ferrenha pela coroa do rei, não mais aquele ornamento de legitimidade e eternidade, mas um souvenir comprado a preço de banana nos gabinetes decisórios de ocasião.


A pontualidade aqui expressa nesta instituição tem seu rigor na medição de acordo com um grau de equivalência, onde o ponteiro grande marca as horas e o pequeno os minutos; nada que nos aproxime de pontual enquanto precisão intelectual e ativa intervenção escolar, seja ela de cunho liberal e seu desenvolvimento geral das potências humanas ou as restritas habilidades individuais; nada que o valha.


Vive-se o dia a dia com certos segredos de bastidores, trocados por centavos de atenção, antecipações de determinações ao jugo do freguês, pensadas como espólios aristocráticos, a poucos pertencendo.


Quaisquer decodificações que se assenhoram para além do reservado estabelecimento policial, de imediato é torcido, amarrotando não importa qual digna é sua leitura; levando- o para próximo do cadafalso da maledicência e do esquecimento.


Nada aqui se refina ou observa com olhar contextual, ao ingênuo alheio aos jogos de poder e jurisdição, trata-se de incólume instituição, “ neutra” ao ponto do acinzentado e perspicaz julgador das verdades dos programas e políticas de ensino.


Tem- se de fato uma honra baseada em informações redundantes, tidas como fresco fruto do pé: decretos, regulamentos, regimentos e mexericos. Alçados a um saber profundo, as coscuvilhices pavimentam o balcão de trocas da gerência.


Talvez a falta de pensamentos próprios sobre a educação faça com que a leitura extensiva de manuais, boletins e correlatos, sejam um bálsamo de instruções aos gênios afáveis, de credulidade sem critério.


Na contramão de um bom cozinheiro, que pode dar gosto até a uma velha sola de sapatos, um mediano supervisor não consegue alimentar os outros com os restos não digeridos; ineptire est juris gentium ( a inepcia é um direito de todos).


Sua pobreza impedi-o de praticar qualquer honestidade ou honradez, pois a ti sobra o torcer, enroscar, acomodar- se e renegar convicções. No espectro de sucesso, sombra que se sobressai, rasteja, adula , toma partido e faz camaradagens; qualquer coisa é melhor do que dizer sobre o verdadeiro e contribuir para o trabalho do outro, assim torna- se seu procedimento e seu método. Velhaco cheio de preocupações, ora destino certeiro, de rugas no rosto e encanecidos na alma.


Arte da destruição, com todo zelo vai minando todo êxtase da transformação, conformando tudo ao relés quadrado da submissão, imprecando todos aqueles que pela diferença contribuem, extrapolando os limites estreitos do cercadinho.


Os diletantes fazem a vez da diferença, que não conjugam com tal ordem de coisas, que caminham altivamente por entre os corredores e se arvoram uma ingenuidade infantil dos antigos; ai de ti cabeça iminente que de destaque com pouco alçar,  perigo a todos ao mesmo tempo consistirá. A brevidade e a incerteza da função coloca- te no palco da execração latente, que afunda contigo e a instituição pelos modos pelos quais a gestão subtrai.


A condescendência generalizada de todo povaréu semi- formado e semi- socializado atende em cheio aos desígnios concupiscentes do lamaçal administrativo que se adensa ao longo de um transitar temporal.


Uma justaposição inflamatória de ações descabidas, fomentando o descaso como regra, institui um conjunto de relações de forças pautadas pelo conformismo e pela rejeição silenciosa, estabelecendo uma dimensão esquizo territorial, isto é, um duplo de convivências: um plano de adequação e um outro, subterrâneo, alojando seus sujeitos numa insatisfação em todo expediente. O café com bolachas sempre desce amargo, carrega contigo as mágoas e injustiças rotineiras.


A permanência neste grupo seleto responde a uma necessidade de bajulação e adulação, do aspecto hierárquico; e uma disposição rebaixadora diante das inconsistências laborais.


Aqui não estamos no processo mecanizado e ultra especializado similar as tecnologias de ponta e seus interiores criativos. A inquisição diretorial persegue o ganho da batalha contra a criação pedagógica, pois como guarda dos dogmas embrutecedores das estatísticas, uma trincheira pré existe entre escolas e diretoria; não por funções distantes, mas como lugares de deposição residual incompreensível. Esta dupla face da administração educacional esvazia o ambiente de articulação dialogal entre pares, instaurando de maneira abrupta uma cisão intransponível.


Os limites impostos não delineiam espaços de atuação, mas sim territórios de controle e sujeição. Típicas funções burocráticas são sobrelevadas a existência pura, sem titubeios. A pendular práxis produtiva, senhora do saber por passos e recuos; é atropelada sem piedade por um decreto na mão e a subserviência como modo de vida.


Aí de ti galante educador, que ousar ensinar para a liberdade, a astúcia cognitiva ou mesmo para um flerte com a criação; será rapidamente excomungado e atirado ao solipsismo involuntário, como pena pela subversão indigesta diante do catecismo predatório da repartição.


Para que a delegacia funcione como espaço de perseguição e ordem, é necessária a manutenção de lugares de controle, mais do que de funções, verdadeiros perfis de docilidade. Correndo pelo corredor polonês, por entre portas a vagar, diário de um insensato desgaste, onde se decide aquele que vive e o que deve morrer; este prenúncio de um óbito pedagógico decorre de um apaziguamento vital inexorável; uma deserção professoral brutal.


Apertos de mão e sorrisos amarelos, compinchas de ocasião, para fazer de ouvidos um qualquer alguém; cochicha-se por entre conchas, sem que nada escapa por entre os dedos, mas se sabe que o falatório é fluido e que sempre desliza por entre frestas, até chegar no labirinto de outro alguém.


A manutenção de certos costumes e valores, centrados numa lógica mobiliária dos afazeres, engessa e desmobiliza qualquer ação pedagógica tendo como pressuposto o movimento. O necessário combate contra a opinião, brava fuga do senso comum, próprio de uma pedagogia engajada e emancipatória não acontece aqui por entre estas portas e batentes.


A ordem se alimenta apenas de ordem, mais do que de senso ordinário, faculdade que centralizaria as informações; o abominável é emitir, receber e transmitir palavras de ordem. Estes gabinetes parecem terem sido criados não para fazer-se acreditar na educação, mas para exclusivamente para obedecer e fazer obedecer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Eduardo Worschech

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