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A Face de Um Professor Sofrido

  • 5 de fev. de 2023
  • 3 min de leitura

 

Vinte ou trinta anos é o tempo de permanência numa profissão. Não me ocorre dizer de quaisquer outra ocupação senão a de professor. Vocação abstrusa que por completo se encerra num desprestígio social continuo, ao caminhar da dissolução do criar. Imagem que se faz do professor, alicerça- se na distância típica do senso comum, tão distante das escolas como da vida hodierna, por mais paradoxal que possa soar.


De natureza atípica, professar se tornou ao longo de uma breve estória a conjugação de insatisfações, limitações e algo desidratado, como aquelas frutas secas empurradas nos balcões dos mercados citadinos em tempos de natal.


 Figuras que a pouco estarão extintas, contadas como mitologias e fantasias pelo desejo de saber; de arroubo intelectual se transfigurou na languida figura de escassez social e de poucas vivências extraescolares, tirando suas noites de sono mal dormidas nas querências não tão distantes de suas matinais cobranças de horário laboral.


A proletarização do professorado parece estar desde sempre associada a uma concessão que se fez diante de um obrar intelectual, apreciado apenas por um casta literária, literalmente letrada. Esta força laboral, está integração do mental ao natural ‘ mão na massa', produz um locus seguro ao profissional, que agora sente que sua singular condição inscreve-o no fraternal esforço que a todos é cobrado, como justo deve ser a todos: sem alegria, rotinas, atrasos, escuridão e abandono.


Meros coadjuvantes no teatro escolar, a mercê de toda força e revezes administrativos- burocráticos, ainda tem de sofrer os desenlaces propiciados por sua relés existência, consubstanciada no desamor a sua função e a insatisfatória monetarização; fruto aliás de sua premente desaparição social, além do extravio de uma dignidade que nunca foi atendida.


É imperativo a logorreia que perdura, que arrasta também seu corpo ao topo das lesões por esforço; que são compensadas por uma alegria nada contagiante de que um bem estariam fazendo a alguém; condescendência com seus próprios mal feitos, premiados com a esperança de um dia serem reconhecidos ou recompensados.


As fortes personalidades são aquelas que na vanguarda se mantém distantes dos fluxos reativos da perdição dos corredores, portas e mais portas de salas fechadas; presunçosos como são vistos, excluem- se da turba e passam a praticar uma individualidade voluntária, fruto da melhor safra do escapismo salutar aos determinismos pedagógicos.


Mas nada deixa por ferrolhar como nas reuniões de planejamento. Não importa qual preparação apocalíptica você esteve presente, ela não lhe põe em pé de igualdade com o primeiro ou o último dos dias.


A exortação ao imprestável percorre uma dezena de carteiras até chegar em ti; com a angústia segurada, sabe-se do valor irrisório daquele informativo e seus respectivos adendos  inúteis. Catapulta-se horas de vida, relógios batem os ponteiros; mas não importa eles dizerem para se afastarem do começo, ao fim todos estarão condenados a penas que variam de acordo com seus pecados.


Com falas incompreensíveis, ao professor de caráter limitado, aquele da cartilha empoeirada e do jaleco mofado, cabe curvar-se por sob o espelho de si; baixeza cognitiva a todo vapor. Assenhora-se de um estofo que nunca lhe pertenceu e que acaba por evidência explicitar aquilo que todos sabem:


“Não há nada novo sob o Sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do pó, em pó se tornam”. Eça de Queiroz.


Uma boa aula leva anos: cinco na faculdade, mais cinco estudando para o concurso, seis carregando cruz, nove cumprindo o currículo, sete levando esporro, quatro sozinho no corredor, três mudando de sala, dez trocando as disciplinas; Paulo Leminski muito sábio também incluiria a eternidade, aluno e professor, caminhando juntos.


Nossa melhor qualidade como professores está naquilo que se vê e não se comprova, por alienante disposição a qual nos prostramos, com ignominiosa aversão que temos do que fazemos; “ professor, você só ‘ dá' aula ou também trabalha?”


Esforço hercúleo por acreditar naquilo de valor que poderia haver em assentir a docência, o professor carrega contigo mais do que seu livro de presença e aquela maçã deixada em sua mesa ao chegar. Um desjejum cotidiano acontece por todas as vezes que o mestre toca numa sala de aula, que estranha-se com os saberes e que busca capturar as atenções dos fugidios pupilos com adocicadas palavras de trato pedagógico.


Apesar de todo pesar, parece não haver nos convívios sociais de toda uma vida uma figura que nos instiga a elaborar e reelaborar sentidos e significados mais do que o professor. Múltiplas possibilidades; nem simples, nem lineares; acontecimentos contraditórios e multidimensionais; ora, está é a função poética do mestre em ação.


Promoção relacional diante das mais variadas composições e constituições subjetivas, desafiando as diferentes configurações de personalidade de seus alunos, buscando introduzir sempre uma possível dinâmica complexa, na interface entre o pessoal e o social, plural acolhimento a partir dos sentidos que surgem em cada leve toque do giz em sua lousa. Cada sala um mundo, cada estrela um único brilhar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Green Juices

Filosofia, Educação, Arte e Ciência

Eduardo Worschech

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