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Em Queda Livre

  • 6 de jan. de 2024
  • 3 min de leitura

Desenvolvi o hábito de observar cuidadosamente tudo o que está ao meu redor. Esta apreciação talvez tenha emergido de uma catarse pessoal, fruto de um eu assoberbado por uma dinâmica de soterramento familiar.


Desde cedo fui arrastada a crer que uma multidão constituía ao meu redor espectadores de uma vida particular; que a universalidade disso se manifestava no privado; um anjo assim dividia meu assento, tanto quanto um obsessor enchia minha sala de fuligem.


O tempo de vida se confundia com um tempo de arrumação interminável das sujeiras alheias; advindas das visitas, das famílias e de todo um resto que se acumulava em minha porta.


Assim como se nutre o corpo com vitaminas e sais minerais; toda uma alma desfalecia com pesos e medidas. Se não era suficiente este mundaréu de seres abstrusos nos parcos momentos de vigília, ao descanso era guardado a exaustão- pois cabe a nós enchermos o copo, para parecer que o trabalho enobrece.


Está régua que açoita minha existência, sou grata sobremaneira, pois atesta uma inconveniente verdade que não me atrevo a crer: sereis para todo o sempre pobre, pois a mim foi atribuída o dom de resguardar aqueles que me agridem.


Uma sombra e água fresca me é oferecida ali por volta do fim de uma volta, e eu como aprendi, olho de soslaio com desconfiança. A pele esturricada pelo esforço, calejada por agressões vis e desumanas; faz de mim aquilo que transparece, e aparece irrefletida nas reações que de ações são só um suspiro.


Volto assim mais uma vez para o reduto do meu guarda sol de espíritos involuntários, na vã esperança deles serem para mim uma resposta para tudo isso que de certo é totalmente errado; e cantarolo alto para que não possa ouvir aquela nesga de razão guardada ainda no fundo do bolso da calça que não mais visto.


Mas aquilo que basta ainda não é aquilo que satisfaz. Na ânsia da fortuna ser um sucedâneo para a avalanche que me ultrapassa, pisoteio as virtudes que deixo a tiracolo. Enquanto todo aquele pó invade a minha porta, eu efusivamente tento afasta-la com duas vassouradas e uma fechadura que não se tranca.


Estendo assim minhas preocupações no varal, varal que foi montado sem quaisquer retidão moral, por um terceiro que se tornou primeiro em autoridade, sem que a dignidade pudesse ser levada em conta.


Aprendi então que as doutrinas superam as reflexões, e que as repetições são mero acaso; assim, a ansiedade torna-se minha inseparável parceira neste desastre anunciado; com direito a outdoor; mas sem sacada para se jogar.


Com direito a flexibilização de toda uma vida, entrego também a multidão todo o direito que deveria ter sobre minhas decisões, esperando que o retorno seja positivo.


Com tamanha densidade, um emaranhado neural começa a embolar dentro da cachola; e um curto começa a se desenhar, neste projeto de gambiarra que tanto exalto como sucesso.


Começo já desde cedo com uma interminável responsabilidade de nunca terminar; óbvio sinal de colapso que chegou juntamente com a maré, que trouxe um lodaçal e toda sorte de escombros de outras vidas; ainda aqui atendendo a domicílio com a máxima prestação.


Quando se exaure o dia, ao dia que se foi não esgota o peso que sobre mim foi colocado, gastando mais um pouco ainda o que me resta como mim mesma.


Cai a noite e depois vem o dia, e do dia fez-se noite; e não percebi é que a escuridão não se aplainou com o nascer ou o espairecer do sol. Se ainda pudesse do cinza reter minha atenção, talvez a cor poderia brotar do incômodo; mas como do escuro não se faz nada mais do que furtar a luz, infelizmente não é possível que ao brilho possa um dia sobrelevar.


Por mais uma vez estou sob o sol que não brilha, desta sombra que persisti, e com a aparente desejável companhia de um eterno batismo de água, que irrefreavelmente persigo para me banhar, ou talvez me afogar em definitivo.

 
 
 

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Green Juices

Filosofia, Educação, Arte e Ciência

Eduardo Worschech

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