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Aprisionamento Voluntário

  • 2 de jul. de 2023
  • 4 min de leitura


Mergulha-se sem quaisquer receio; não deveria ser uma região de pouca oxigenação, mas a saturação de dióxido de carbono é tamanha por conta das respirações ofegantes e angustiosas, que promovem um entorpecimento generalizado.


Entre cumprimentos forçados, manuais e conversas pontiagudas, afunda -se com o peso da embarcação, que submersa até o ponto sem retorno de um naufrágio, dá de ombros para a morte súbita diante de todos.


Os espúrios personagens desta tragédia conclamada instigam hodiernamente seu próprio fim, desejo de que tudo acabe, mas numa insistente vontade de permanecer como se esta.


Que morbidez é esta que nos agrupa neste circo de horrores, com direito a uma neurótica readaptada, um paspalho careca e um picadeiro a virar; onde o show acontece ininterruptamente?


Não se passa incólume nesta apresentação, pois todos que lá entram, não conseguem sair. A mistura de fascínio, histeria e transtornos mil, dão o ritmo e o tom nesta comédia forçada.


Uma vida inautêntica percorre longas trajetórias rumo ao abismo do esquecimento; o aglomerado denso, amalgama de preconceito e desordem, faz sucumbir o corpo, que afunda na contracapa de si, num processo de simbiose que aprofunda sobre seus veios, e que desaparece no momento mesmo de seu nascimento, paradoxo geral da existência.


Neste grupo heterogêneo, caricaturas se desdobram em outros universos, com sua própria revolução orbital, densidades e aproximações; e elas são tão diversas que o simples olhar pode modificar sua dinâmica; poder do observador.


Nos caminhos, territórios de situação provisórios, eles são constituições subjetivas, na medida em que só se realizam pela intervenção relacional dos sujeitos e esta materialidade que sustenta seus pés. A virtualidade do território é patente, só existe como sustentáculo de encontros e ganha um lastro de fato a partir dos corpos que nele habitam, transitam e criam.


Não há quaisquer independências do espaço em relação a sua criação; eles só podem ser identificados enquanto virtuais espaços de convergência; esta característica é elementar no reconhecimento dos lugares por procuração; caracterizados pelas mobilizações que nele emergem.


Um caso contrário nem poderia ser descrito, pois não há nada que pré- exista ao confronto subjetivo dominante. A referência a subjetividade nada mais é que a presença criadora do sujeito que interfere, interpreta, introjeta signos que não estariam sem sua presença, mesmo que virtual.


Se então a virtualidade denomina um estado transitório de manifestação agonística sujeito-espaço, quer dizer que ela é a  interdependência necessária para a sustentação da vida: ativa participação na constituição de situações vivências.


O estabelecimento de uma linha demarcatória entre condição de produção e o vazio é tênue, pois o vazio não se apresenta como a não- ação criadora, mas a própria inexistência de registro em nosso entorno; é o nunca ter ocorrido.


Assim, as ações criadoras são a ativa intervenção no meio, produzindo territórios de aparição, isto é, nada destas confabulações tem sentido se não houver um alinhamento cognitivo- espaço- temporal; a manifestação inequívoca do sujeito em seu meio.


Aquário de tubarões, com bordas proeminentemente visíveis que o artificial traveste-se de real, arrasta para as profundezas a um mesmo belo e sublime; catastrófico e perdular, avalanche subterrânea, imprecisa situação de desespero e aceitação.


Todos aqueles que nadam não percebem o quão atolados estão, imperceptível estado de imobilidade profissional. Uma troca de funções parece sempre ser uma conquista no interior da máquina de triturar ossos; mas o que encontra-se é uma dose suficiente de negligência e ingerência, resultando naquele sujeito habituado aos desgastes contínuos e masoquistas.


Ele não se fortalece com aquilo que o diminuí; falsa esperança encontrada nos vãos escritos e ditos dos malversados falantes do desespero. O que se concretiza de fato é um belo tropicão na estima, um arranhado no verniz de sabedoria e uma rasteira naquele corpo frágil e débil de um convalescente.


Na sala ao lado, ele lamenta em seu íntimo latente sua inferior posição diante de sua própria idealização, o que demonstra sua rebaixada estima e seu gosto pelo sempre mesmo. De fala fleumática, afoito ao diverso; pois de complexo não tem quaisquer aproximação, deseja a mesma marmita todos os dias, na estúpida esperança de um dia morrer sem deixar que a vida lhe perturbe; mal sabe ser o protótipo de tudo isso.


Atraído pelo relés espírito, suas capturas como que se ligam por afinidades eletivas, na baixa estatura cognitiva e sob o peso da iniquidade; passos seguidos por marcas no chão, rastros quase apagados por uma prática canhestra e não transformativa.


Um séquito forma-se inevitavelmente por sob a ponte daquele rio; caudaloso e que atravessa todo o vale levando vida por onde passa. O tráfego intenso sobre ela se esgueira de sua existência; mas aqueles que debaixo estão são aqueles que podem até sentir sua passagem, mas ignoram suas benesses.


Aqueles poucos que se atrevem a saltar nas profundezas deste rio, chamados de incompetentes e vagabundos; são os únicos que em sua essência puderam sentir o educar, diferentemente daqueles nas quais suas funções determinaram apenas o fim, a perpétua aposentadoria.


Caricaturas de uma obra inacabada, perdulários de um locus em permanente paralização, mimeses do pior que poderia exemplificar, com seus decaimentos consecutivos e que reiteram seu fim a muito prorrogado.


Enquanto tais corpos ainda ocuparem inadvertidamente estas relações, uma prisão de grades nos corações e carcereiros em sua alma, ainda aqui permanecerão; lugar cativo de toda rasteira criatura a servir.

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

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Green Juices

Filosofia, Educação, Arte e Ciência

Eduardo Worschech

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