Rumo ao Azul Real

Lembro-me de contar que sempre fui curso, leito e travessia, correnteza moldada pelas pedras que não escolhi em meu caminho, às vezes uma simpatia com as margens sem alarde e um exagero sobre os rumos cambaleantes.
Em cada meandro, vestígios de passagem solapando sedimentos, camada por camada de esquecimentos lembrados e dívidas apagadas.
Toda aquela fisionomia que adentrava, que fazia de mim produto de um firmamento, nada contava sobre o neófito fluxo, de pouca profundidade e centenas de revelações.
Na calmaria do raso borbulhante, as inflexões visíveis eram fruto das incertezas sem identidade, transitório despertar de significados.
Riacho de poucos amigos, de passos longos na areia fina e que ao menor ruído frustrante erodia a esmo a dignidade daquela praia, cegava a vegetação e se mancomunava com os lambaris que ali viviam.
Não era fúria que ali pressentia, mas o verdadeiro desconhecido que em seu interior vivia, subtraindo cada passo, apagando marcas que ao futuro permaneceria.
E foram as intempéries que denunciaram sua frágil existência, que mal podiam arrastar as folhas do outono, deixando o manto pesado de seu otimismo soterrado no mais fundo de seu abismo.
Se da raiz diz-se fundamento, do fluído movimento; é a inconsistência visceral que constitui uma firmeza de descomunal força, mas que também pode facilmente sucumbir às correntezas ascendentes.
E nas insignificâncias sobrevalorizadas, acreditei compartilhar a mesma natureza de outrora, subsumindo as memórias trazidas nas garrafas.
Pudera eu, em minha correnteza, ser forte o bastante para empurrar todo esse escuro ardor para bem longe — curso adentro, até o oceano —, tanto quanto fosse necessário para que pudéssemos, das águas calmas, voltar a refletir os astros em sua plenitude, daquele mosaico que por milênios decorou a noite azulada.




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