Imprescindível Quietude
- 26 de nov. de 2022
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Atualizado: 19 de jan. de 2023

O ritmo desenfreado da datacracia1 reinante no âmbito escolar do Ensino Integral no Brasil, tem furtado professores de sua atividade hodierna e ordinária, o ensinar. Furto porque é furtivo e velado; mascara um projeto de esmaecimento de possíveis fluxos libertários de uma educação para um autogovernamento dos indivíduos. Quaisquer que sejam os modos pelos quais o ensinar poderia ou mesmo deveria ser praticado, ele é abafado pela aceleração ao infinito na produção de dados ásperos e inócuos.
Se de fato como queria Hegel, todo o racional é uma conclusão, uma conjugação entre o início e o fim de um processo, e que formaria um conjunto dotado de sentido; logo, as narrativas também seriam conclusões. Dito isto, rituais e cerimônias, enquanto narrativas de transição, seriam conclusões com tempo próprio, ritmo e compasso (HAN, 2021, p. 12). Então, tomando a educação enquanto território híbrido de tempo e sentido; um lugar de passagem, como diria Deleuze; a aceleração de processos nas escolas de Ensino Integral acaba por instaurar uma profanação pela via da adição perniciosa de múltiplos soterramentos pedagógicos; escombros despejados nas “cabeças” dos alunos- via a cobrança de avaliações de competências, projetos socioemocionais entre outros empecilhos ao aprender- produzindo uma gangrena rítmica e descompassada no saber subjetivo.
Se por um instante lembrarmos de Nietzsche e do grande Pã dormindo; na qual [...] todas as coisas da natureza adormeceram com ele[...], seu coração estando em repouso, apenas seu olho vive.”, poderíamos pensar num subjetivo que se constituí como aquilo que satisfaz ao âmago das sensações, que se contenta no instante e fecha o quadro em si próprio, causando um efeito de fechamento conclusivo, repousante; logo, uma subjetividade absoluta só poderia ser alcançada num estado de silêncio, fechando-se os olhos para que as imagens caminhassem em direção à fala no silêncio. (HAN, 2021, p.15)
O silêncio que menciono e que estaria no repertório do ensinar, se consubstancia na reflexão, num retorno a si mesmo como aprendizado. O ruído frenético dos dados, tabelas e cronogramas tem produzido como efeito uma substituição do reflexivo, um cansativo olhar sempre aberto, sem descanso e aconchego; que não cria narrativas por conta do rápido revezamento entre imagens que não permitem que fechemos os olhos. Queimam-se as retinas, leva-se os olhos; e com eles todo o inebriante tesouro do ensinar.
1Trata-se de um mecanismo de extrapolação de dados a partir de uma coleta infindável de resultados e análises, promovendo um movimento centrifugo de informações estéreis. A datacracia instituí um aceleracionismo burocrático, destituindo os processos de um começo, meio e fim determinados.
Byung Chul. Fechar os olhos: Em busca de um outro tempo. Editora Vozes 1ª edição, 2021.


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