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As desilusões de uma Jovem Senhora

  • Foto do escritor: Eduardo Worschech
    Eduardo Worschech
  • 27 de jun. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 10 de jan. de 2023




Eduardo Worschech, Mestre em Educação pela UFSCAR, graduado em Filosofia pela UNESP. 03/08/2022



Quanto é ingrato para os encontros no ambiente dos sites de relacionamentos os entraves gerados pela leitura truncada dos algoritmos computacionais. De maneira geral, as preferencias físicas, emocionais e até mesmo existenciais são depositadas pelo usuário nas plataformas virtuais, com o intuito de encontrar parceiros compatíveis; e o sistema gerencial de busca lhe oferta um cardápio de possíveis referências amorosas. Mas o que não cabe ao algoritmo, pois este código de organização e instruções está limitado pela doação de nossas informações, é saber discernir entre um amontoado de dados e os valores a que a eles estão atrelados.


Se um algoritmo é uma sequência de instruções que visam um objetivo, operados sistematicamente a partir de passos finitos, com uma porta de entrada (input) e uma de saída (output), teríamos como exemplo um conjunto de elementos de preferência do usuário, como idade, gosto musical, altura, etc. (que seriam os dados de entrada), um processamento lógico destas informações com vistas a atingir um resultado (os dados de saída).

Num primeiro momento, a simplicidade dos dados de entrada é elevada a enésima potência em complexidade, dada a consideração de cenários possíveis, articulado com as estruturas de um algoritmo, que são variáveis, isto é, predizem onde o algoritmo poderá ir, mas não só isso. Há também os comandos de repetição, que consistem nos condicionantes “se” e “enquanto”, que propiciam o algoritmo a mudar de rumo caso determinados processos ocorram ou mudem; o resultado está sempre aquém daquilo que de fato o usuário deseja em seu mais profundo amago.


A suposta neutralidade do algoritmo acaba por esfacelar a volição primária do usuário, mantendo intacto apenas fragmentos descabidos do que estaria talvez ilusoriamente presente na descrição de desejos mantidos escondidos; não conseguindo integralmente uni-los.


A jovem senhora que buscaria seu “par perfeito” a partir desses elementos primários, acaba por encontrar estereótipos escolhidos pelo algoritmo, que sempre virão com um “algo a menos”, diante de sua idealização canhestra. Mas estes maus encontros não se encerram apenas neste ranço prototípico.

Os valores enraizados em toda escolha que fazemos, sob a inspiração e sob a ótica de vida, perfazem todo o fluxo de vida que nos constitui. Os valores morais, especificamente, que são aqueles que nos colocam parâmetros de julgamento, advindos externamente da cultura na qual estamos inseridos, são referências do que de comum existe e caracteriza o ser humano em seus modos de ação.

Quando a jovem senhora se indispõe com um possível parceiro que não conjuga com seus valores morais/ religiosos, por exemplo, valores estes não descritos do ponto de vista da crença, acaba por gerar um impeditivo ao encontro. A crença, neste sentido, introduz um elemento valorativo na mera descrição “católico”, ou “espírita”, ou mesmo “ateu”. O adensamento dogmático, aquele que diz respeito as regras doutrinais, entra em choque com elementos simplórios, facilmente contornáveis por uma visão aconchegadora, que permite contornos nas vestimentas, cortes de cabelo, ou uso de adornos (como uma tatuagem), permitindo que um encontro pudesse acontecer e talvez, “mais um casal pudesse ser feliz num encontro”.


O desgaste provocado pelo algoritmo não valorativo, que desconhece o caráter relacional dos valores e a produção relacional advinda do encontro entre os sujeitos, impedi a produção da qualidade de algo, neste caso, as qualidades morais atribuídas pela jovem senhora de maneira consciente.

De maneira breve, o caráter subjetivo dos valores passa pela apreciação de algo feito segundo os interesses do indivíduo, fato que denota uma certa ambivalência na caracterização dos valores, pois estaria atrelada ao manejo de elementos objetivos e subjetivos.

De maneira elucidativa, vamos contar uma pequena “história”. Uma jovem senhora de 46 longos invernos, de moral provinciana, carregou seu perfil de namoro com uma descrição específica em relação a religião: sem religião. Quando colocadas lado a lado, primaveras e maturidade, talvez se espere que esta conjugação promova uma certa maturidade, ledo engano. O fato é que a jovem senhora se escandalizou com a falta de crença de seu provável parceiro, desconhecendo em absoluto o fato de haver pessoas sem religião no mundo, ateus. Sua descrição “sem religião” não se coadunaria com a mesma descrição do seu pretendente, pois os valores e crenças as quais estes códigos verbais estão atrelados seriam distintos. “Sem religião” para a jovem senhora, significaria “não praticante”; já o mesmo termo para seu pretendente se referia a descrença em quaisquer divindades. O fato é que os preconceitos religiosos da jovem senhora, e seu total desconhecimento em relação ao seu provincianismo regressivo, impediu não só uma reflexão em torno das discriminações de maneira geral, como forçou um distanciamento por parte dela deste desejado postulante.

O destino com amor, preconizado pelo messianismo de Jesus, talvez não tenha germinado no amago da jovem senhora, produzindo uma disposição ativa; mas em seu lugar, desenvolveu-se um ranço religioso pelas diferenças no mundo, caminhando exatamente em sua contramão.

A abertura para atingir pontos de culminância de potência que implicam na quebra de estruturas cristalizadas, como estas advindos de ranços religiosos, advêm do encontro dos elementos universais e singulares da vida, atestando seu caráter de plenitude; deixando que rejeitemos o destino como estranho, para ser assumido como amor.




Referências

ALVARENGA Junnior Neto. F. GENEALOGIA E CRÍTICA DOS VALORES EM NIETZSCHE. Sapere Aude, v. 8, n. 15, p. 285-293, 22 jul. 2017. Visto em 30 de julho de 2022 em: http://periodicos.pucminas.br/index.php/SapereAude/article/view/13813

FEILER, Adilson Felicio. Nietzsche, o psicólogo da desconstrução do sujeito. A visão de um deus não moral. Griot: Revista de Filosofia, Amargosa –BA, v.18, n.2, p.34-42, dezembro, 2018. Visto em 02/08/2022 em https://www3.ufrb.edu.br/seer/index.php/griot/article/view/970/575

PEDRO, Ana Paula. Ética, moral, axiologia e valores: confusões e ambiguidades em torno de um conceito comum. Kriterion: Revista de Filosofia [online]. 2014, v. 55, n. 130, pp. 483-498.Visto em 30 de julho de 2022 em: <https://doi.org/10.1590/S0100-512X2014000200002>.


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