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Frescor da Infância: Heterotopias Pulsantes

  • 30 de jan. de 2023
  • 5 min de leitura

 

Deixa-se a casa e segue-se o fluxo paranoico do labirinto urbano disposto em suas ruas e avenidas; fumaça abstrata que permeia o caminho, impede aquele que não consegue ver além a vida exuberante que emerge em espaços arborizados, de grama rasteira e uma familiar estrutura lúdica, não em si mesma. Espaços artificiais com virtual potencial de criação, esperando a presença do meninil e a vida em seu estado de transbordamento.


Praças compostas por brinquedos metálicos, escorregadores de madeira e balanços mil tem proliferado nas pequenas cidades, muitas absorvidas por uma demanda de espaços infantis diante do betume viscoso e penetrante; e do concreto rígido das relações humanas.


De maneira geral, espaços púbicos apropriados pelo escanado voluntário que mescla à vontade de permissão a vida infantil e o controle temporal do divertimento sem fim, mas que encontra um entrave próprio dos frutos maduros, e que acaba por esconder sua limitação espaço- temporal; cai-se sempre perto do seu galho.


Em contradição pujante, o frescor toma conta das praças e promove um novo espaço; fios de novelo que se desenrolam em múltiplos platôs existenciais. A juvenilidade primaveril traça caminhos nunca antes percorridos, sem relação impositiva, fazendo-se e constituindo-se na apropriação dos lugares, promovendo um fluxo nômade que se refaz a cada pegada.


Se tomarmos como pressuposto que espaço e tempo talvez digam respeito a maneira pelos quais tratemos estes marcadores existências, muito mais do que categorias do entendimento, restritas aos nossos aparelhos cognitivo- racionais; poderíamos elenca-los defronte a grandeza expressa pela pequenez corporal das crianças e sua grandiloquência inventiva.


Se aventássemos a ideia de que o orgulho advém de representações daquilo que nos apraz, raízes valorativas que nos satisfazem enquanto códigos simbólicos de aceitação, reconhecimento e  satisfação; teríamos a triste constatação de limites e barreiras produzidas por nós mesmos, adultos, ao mundo infantil; e sua infinita e majestosa expansão.


Se o orgulho de um filho é marcado por esta sombra de valores passados e repassados, a infância tristemente seria fraturada por uma dimensão negacionista da vida que prossegue, que se replica em uma outra vida, na perspectiva de um mundo cíclico e desgastado, o mesmo de sempre nestas mentes breviloquentes. De fato, a expressão de frescor só pode ser feita num devir criança, neste aspecto novidadeiro da infância, do pulsar meninil e do espanto com um mundo por vir.


A dinâmica insurrecional impressa pelas crianças nas brincadeiras se assemelha a lance de dados ininterrupto, uma trajetividade sem destinos traçados (aqui as moiras não tem força alguma), e em que toda normativa cairia por terra na presença dos pequenos pés que afundam o solo macio da fantasia.


Assaltar a lógica das funções e subverte-las por completo são estratégias próprias das crianças, que sempre fazem transbordar os limites de tudo que é estabelecido ( Foucault, 2013)


A disputa que ocorre não é entre gerações, mas no embate acirrado entre dois regimes de percepção do mundo: a expansão da vida e o retraimento a mera funcionalidade existencial.


A trajetividade infantil, deslizamento irrecuperável entre as condições objetivas do existir e as condições subjetivas, acontece no modo pelo qual há uma permuta transitória de sensações, percepções e afetos; instaurando um tempo outro, intensificando composições imaginárias, solapando o presente ensimesmado e contido na dimensão do presente.


Sem mundo verdadeiro e a lógica perversa da convenção dos signos, um devir meninice flui em oposição a realidade volátil dos valores adultos, depositório da mais rarefeita causa das coisas. Coisas estas que resultam do fetiche voluntarista da superior razão de ser, de ponta cabeça em relação a espontânea triagem criteriosa que o próprio corpo tem de manter-se e autorregenerar-se; espírito vital.


A vida sempre recomeça onde uma clivagem persiste enquanto mecanismo de proteção. As crianças tem em si estas armas de destruição da morte engatilhadas; em sua “riqueza encantadora de tipos, a exuberância de um pródigo jogo de formas, de uma benfazeja mudança de formas” ( NIETZSCHE, 2006, p. 47).


Abre-se os olhos para um novo raiar, momento da sombra mais curta e do erro mais curto; ao contrário do que se possa pressupor, não é o excesso de estímulos que promovem grandes feitos; os grandes feitos são produtos do leve, necessário e livre criar.


Digníssimo menineiro, afastado das causas imaginárias, sem ressonâncias explicativas como inversões do tempo, assenta- se no acaso do escorregar, pular e girar; contentamento generoso pelo sentir explosivo, ruptura com os hábitos hodiernos; consumação da plena paixão.

Sua multiplicação vivencial se antepõe ao limitado, sente- se apenas o movimento, sem empecilhos de vista curta e nomes como se tivessem duração fixa; criança, tu sentes as águas que te banham como as primeiras em muitas que lhe tocaram .


Todo o devir nasce do conflito dos contrários; as qualidades definidas que nos parecem duradouras só exprimem a superioridade momentânea de um dos lutadores, mas não põem termo à guerra: a luta persiste pela eternidade fora” (NIETZSCHE, 1995, p. 42). 


Que nunca confunda-se o vigor e sua respectiva velocidade exponencial infantil com a ligeireza do giroscópio que mata as cores e torna tudo cinza ( Morand apud Virilio, 1993, p. 116). As regras planificadoras que buscam instituir um trajeto de brincar nos parques, necessidade redutiva de pormenorização das sensações habitáveis, nos coloca em precisa observância vis-à-vis com os adultos.


A partir de uma atrevida extrapolação, poderia dizer que um autêntico ato de brincar resulta sempre de uma contra-consumação das representações desgastadas sobre a infância e seus delírios capturantes de suas maravilhas transitórias. Dizer o que é, acentuar suas dimensões e nomear conclusivamente a infância, própria da ganância senhorial do mundo adulto, é estabelecer uma quimera entre o estado de coisas e algumas proposições; é estabelecer uma verdade por simples correspondência representativa.


O tarimbado inadvertidamente carimba a puerícia com seus arranjos sociais de poder e desejo, de uma pragmática visão de desenvolvimento, e estrutura a partir daí técnicas de expulsão do criar, inventar e produzir mundos novos; elementos que emergem do experimentar infantil.


A dissolução deste aparato de guerra é sempre alcançado pela incessante potência meninil em confrontar o mundo representativo adulto através das rachaduras das estratificações elaboradas para definir os períodos da vida, totalizantes do Ser da vida; tentativa de conservar o seco das folhas, sem saudade nem perdão.


De “baixo para cima” é que as crianças desarrumam os enclausuramentos com suas dobras e invenções, promovendo um espaço outro nos parques, e consequentemente uma relação a si e aos outros fora das estagnações valorativas e prescritivas.


Este ato de força excepcional contraria a maquinaria sedentária do mundo adulto, promovendo uma operação corporal- motora de afirmação da vida pela via do movimento.

 

A poesia está guardada nas crianças


No seu fazer da realidade e no descobrimento inventivo


No quintal maior que o mundo e nas gigantes marcas dos pés descalços.


Olhar que amanhece o dia e que reinaugura as tardes


Com sotaque novidadeiro, extrai risos de pedras e giros de quadrados


Traçam seus mapas com o giz da amarelinha, do lado de lá e do lado de cá; e também de outros lados


É a eterna criação de mundos outros, que nunca nos abandona a imaginação


 

Homenagem a Alexandre Filordi e seus devires-criança conceituais.

 


Bibliografia


FOUCAULT, Michel. O corpo utópico: as heterotopias. (1966). Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo: Edições n-1, 2013.


NIETZSCHE, Friedrich. Crepúsculo dos ídolos. Tradução:  Paulo Cesar de Souza. Companhia das Letras. São Paulo. 2006.


NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. São Paulo: Cia das Letras, 1995.


VIRILIO, Paul. O espaço crítico. Trad. Paulo Roberto Pires. São Paulo: Editora 34, 1993.

 

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Eduardo Worschech

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